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A música e a memória – O caso de Clive Wearing

By on November 27, 2011 in MusicaMente with 1 Comment

Uma música chama nossa atenção, ensina-nos sobre sua estrutura e seus segredos, independentemente de a ouvirmos de modo consciente ou não. Isso ocorre mesmo se nunca tivermos ouvido determinada música.
Ouvir musica não é um processo passivo, e sim intensamente ativo, que envolve uma série de inferências, hipóteses, expectativas e antevisões.

Podemos entender uma nova música, como ela é construída, aonde está indo e o que virá em seguida com tanta previsão que mesmo depois de alguns compassos poderemos ser capazes de cantar junto com ela.

Esse cantar junto é possível porque possuímos conhecimento, em grande medida implícito, de “regras” musicais e familiaridade com determinadas convenções musicais (a forma de uma sonata, a repetição de um tema). Mas a antecipação não é possível com a música de uma cultura ou tradição muito diferente, ou se as convenções musicais forem deliberadamente desrespeitadas.

“Jonah Lerner”, em seu livro “Proust was a neuroscientist” (Proust foi um neuroscientista), analisa como “Stravinsky” celebremente transgrediu as convenções em “Sagração da Primavera”, cuja primeira apresentação, em 1913, provocou um tumulto que exigiu intervenção policial. A platéia, que esperava um bale clássico tradicional, enfureceu-se com a violação das regras por Stravinsky. Mas, com o tempo e a repetição, o estranho tornou-se familiar, e hoje, a Sagração da Primavera é uma música de conserto muito apreciada, tão “domesticada” quanto um minueto de Beethoven (embora Beethoven, em sua época, também tenha sido vaiado, e algumas de suas músicas tenham sido inicialmente consideradas ininteligíveis, mero barulho).

O filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky” (France, Jan Kounen, 2009), reconstitui de forma bastante acurada como deve ter sido a escandalosa estréia, veja vídeo (foi o melhor que achei, tem legendas):

“Stockhausen” causou com seu ensaio “Eletronische Musik Studie I”, ele foi um dos pioneiros no desenvolvimento da música eletrônica:

Quando “lembramos” uma melodia, ela toca em nossa mente, revive. Por isso é possível ouvirmos repetidamente a gravação de uma música que conhecemos bem e ela ainda assim nos parecer tão nova quanto da primeira vez em que a ouvimos, ou talvez mais. Não ocorre um processo de evocar, imaginar, montar, recategorizar, recriar, como quando tentamos reconstruir ou lembrar um evento ou cena do passado.

Lembramos uma nota por vez, e cada nota preenche totalmente a nossa consciência, mas ao mesmo tempo se relaciona com o todo. É semelhante ao que ocorre quando andamos, corremos ou nadamos: damos um passo ou uma braçada de cada vez, e no entanto cada passo ou braçada é parte indissociável do todo, da melodia cinética de correr ou nadar. Se nos pusermos a pensar muito conscientemente sobre cada passo ou braçada, podemos perder o encadeamento, a melodia motora.

Em 1985, Clive Wearing, músico, compositor e musicologista inglês teve uma devastadora infecção no cérebro, uma encefalite herpética. A doença afetou principalmente as partes do cérebro relacionadas com a memória, Clive não consegue lembrar de nada por mais de 30 segundos no máximo, para ele, nada avançou. Pode-se dizer que ele ainda está em 1985 ou, considerando sua amnésia retrógrada, em 1965. Em alguns aspectos, ele não está em lugar algum; saiu totalmente do espaço e do tempo.

Ele não tem mais nenhuma narrativa interna, não leva uma vida no sentido em que o resto de nós o faz. E no entanto, só precisamos vê-lo ao teclado com sua mulher (Deborah) para sentir que, nesses momentos, ele volta a ser ele mesmo e está plenamente vivo. Não é pela lembrança das coisas que passaram que Clive anseia, e não é isso que ele poderá algum dia reaver. É a posse, o preenchimento do presente, do agora, e isso só é possível quando ele está totalmente imerso nos sucessivos momentos de um ato. É o “agora” que faz a ponte sobre o abismo.

Sua mulher, “Deborah Wearing” escreveu: “É na familiaridade de Clive com a música e com seu amor por mim que ele transcende sua amnésia e encontra continuidade baseada em alguma estrutura ou informação autobiográfica, mas é onde Clive, como qualquer um de nós, está finalmente, onde ele é quem é.”

Veja um pouco sobre a história de Clive (vídeo em inglês):

Fonte:
Wearing, Deborah (2005). Forever today: a memoir of love and amnesia.
Sacks, Oliver (2007). Musicophilia: Tales of Music and the Brain.

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About the Author

About the Author: É blogger, vlogger, neurocientista e Dj de Techno. Já foi dona de loja, garçonete, manager de Djs, assistente de cobrança, vendedora, professora de universidade, webdesigner, fotógrafa, produtora de eventos, especialista em logística de piloto e dona de Club. Ama música, o cérebro, ser do contra e escrever. .

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