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O Trance e o Estado Alterado da Consciência!

By on October 6, 2011 in MusicaMente with 2 Comments

O Trance é um dos estilos musicais que revive o conceito original da música onde os ritmos são usados para alterar estados de consciência e trazer a espiritualidade e dissociação.

Não é do conhecimento de muitos que as origens da música são baseadas na repetição de baterias primárias em rituais xamânicos em busca da espiritualidade. Havia uma ligação clara entre a música e a consciência emotiva, e era através deste ritual básico que um estado de consciência podia ser alterado.
Mesmo com a evolução, é possível ver a evidência deste estado inicial nesse género (trance) da música eletrônica. Muitas formas de trance e house parecem encarnar esta faceta, é com a lenta mudança de tons e com as batidas repetitivas que é possível representar esta intenção primordial. O uso da melodia vocal e percussão (embora sintetizada eletronicamente) formam o fundo para a maioria das canções, imitando sons pré-históricos dos quais a música foi concebida.

Características do Trance
As características específicas da música eletrônica (particularmente o Trance) trabalham para facilitar a quebra normal da consciência. A complexidade das canções consistem em até 9 ou 10 camadas simultaneamente (contra as 4 padrão para uma canção de rock ou 3 para o hiphop), no trance não há sons designados/necessários. Na verdade as músicas utilizam todo e qualquer instrumento para tecer uma teia complexa, todo instrumento tem o seu lugar, desde guitarra até saxofones.

O ritmo do baixo e do drum ao intercalar com outros sons pode provocar uma espécie de realidade temporal ou virtual. É muito fácil perder-se na música ou esquecer-se inteiramente e, ao fazê-lo, é possível esquecer todos os pensamentos estranhos e negativos por completo e voltar-se toda  a atenção a ela. Além disso, a natureza progressiva das faixas pode ter um efeito igualmente significativo sobre as funções corporais; ao progredir em ondas, uma canção em poucos segundos pode ter tanto um efeito estimulante quanto relaxante no ouvinte.

A progressão e a aceleração gradual do ritmo pode trazer um transe hipnótico no ouvinte (daí o nome do gênero) e distorcer o sentido do tempo. Tal impacto pode regular processos fisiológicos, harmonizar a taxa de um coração e sintonizar a química do cérebro de forma semelhante.

Ênfase no Sensorial sobre o Racional
A diferença é que o foco geralmente não está sobre o conteúdo das letras das canções mas no som como um todo. Neste sentido, os vocais são geralmente pouco mais do que uma extensão da música. Um bom exemplo disto é a nova técnica vocal no trance, a qual apenas um fragmento de uma palavra cantada é sampleada e mixada na música de tal forma que se torna indistinguível. Os vocais então se tornam apenas mais um instrumento na track e aumentam a complexidade da música sem envolver a uma razão para ser compreendida.

Nestes casos, o foco do trance (música eletrônica) é voltado mais para a percepção sensorial do que a racional (em que o conteúdo lírico desempenha algum objetivo político ou poético). O objetivo é despertar emoções e estados mentais sem o uso de palavras ou sem uma compreensão das mesmas. A maioria das músicas trance tendem a ter um conteúdo lírico que é simples na natureza, e embora as palavras podem ser poéticas e comoventes, os temas são simples e diretos. O gênero é uma experiencia emotiva, essencialmente.

Estados que afetam a Consciência

Um estado alterado de consciência é provocado por qualquer mudança no funcionamento normal da consciência psicológica. Isso pode acontecer por varias razões; música, drogas e religião servem como meios específicos para alcançar essa mudança. A música eletrônica pode ajudar a alcançar uma percepção alterada e uma dissociação completa da mente e do corpo.

A música trance, em especial, é estudada para estimular as ondas theta do cérebro associadas com os níveis de sono. É um estado de relaxamento extremo onde ocorre o sonho pesado, um fenômeno que é quase inatingível em um estado consciente. O único método conhecido para chegar ao mesmo estado é o da meditação intensa.

Além disso, raves e outros tipos de eventos similares podem ser vistos como um encontro coletivo de pessoas que se deslocam simultaneamente, não é raro sentir-se como parte de um todo. De acordo com o estudo religioso de Robin Sylvan,  “Ao longo de quase duas décadas, a cena rave evoluiu para muito mais do que simplesmente uma festa de música eletrônica. Para milhares de pessoas no mundo todo tornou-se uma importante fonte de espiritualidade e a ligação mais próxima que eles têm a uma religião. ”

Isto pode estar relacionado a formas particulares de experiências religiosas e meditações nas quais as palavras e orações são pouco mais do que um meio para despertar um estado alterado, ou à utilização de drogas como uma ferramenta para a espiritualidade. Os Sufis Dervish, por exemplo, entram em um estado de transe físico enquanto meditam para dissociar sua mente de tal forma que acreditam que assim, ficam mais perto de Deus. O uso de haxixe em rituais de algumas religiões orientais antigas não era nada incomum, tampouco para os sacerdotes astecas era ingerir o peiote como uma ferramenta para orientação espiritual ou visões.

A Música Trance como uma Força Transcendental

A dissociação da mente e do corpo, observadas em algumas experiências, pode levar a diferentes resultados, para alguns pode levar ao pensamento com clareza enquanto para outros pode fazer exatamente o oposto. A música pode ser um alívio para os pensamentos constantes que assolam a mente e fatalmente acabam em fardo, problemas e stress. O poder da música sobre os estados de consciência, em última análise é totalmente subjetivo. A música eletrônica é, portanto, um veículo através do qual se pode transcender em sua própria realidade para perder-se em uma força maior.

 

Referências:

  • Sylvan, Robin. Traces of the Spirit: The Religious Dimensions of Popular Music. NewYorkUniversity Press.
  • Sylvan, Robin. Trance Formation. Routledge.

 

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É blogger, vlogger, neurocientista e Dj de Techno. Já foi dona de loja, garçonete, manager de Djs, assistente de cobrança, vendedora, professora de universidade, webdesigner, fotógrafa, produtora de eventos, especialista em logística de piloto e dona de Club. Ama música, o cérebro, ser do contra e escrever.

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  1. Curti demais o artigo. O entendimento dos efeitos desejados pelas músicas do gênero está perfeito. Os exemplos deixam claro que não é um estilo puro sangue, Trance veio do Techno e House do final dos anos 80, com novos elementos hipnóticos aplicados sobre a base dos estilos já existentes. Foi feliz nos exemplos, clássicos do Trance, porque hoje em dia o que temos são vertentes, “pure trance” não existe mais. Gostei de não ter feito referência ao Psy Trance. Hoje se confundem, mas o Psy surgiu em outra época, cenário e influências completamente diferentes. De trance eu entendo, e dou nota 10 para o seu texto. Emoticon grin

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