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O Eu Vazio. Por que nos sentimos tão sós?

By on August 1, 2019 in Neuromundo with 0 Comments

Lembro de um filme que me marcou muito na faculdade. “A Liberdade é Azul” conta a história de uma mulher que perde o marido e a filha num acidente de carro. Após a tragédia, ela descobre vários segredos sobre seu marido e decide vender tudo e viver em outro lugar, longe, sozinha e perto da água.

Engraçado o tanto que me identifico com a personagem. Além de adorar sorvete de baunilha com café, tenho o costume de me isolar perto da água quando passo por decepções muito fortes na minha vida.

Existe uma grande diferença entre estar sozinho, se isolar para fugir da realidade e de se sentir só. Conheço bem as três experiências.

Estar consigo mesmo, contemplar a vida, os momentos, se entender é muito positivo, e diria até necessário. Estar sozinho para mim é uma das melhores formas de autoconhecimento. O “estar sozinho” com o objetivo de curar e entender uma dor ou uma mágoa muito grande é um processo de cura, de criação, de transformação, de renascimento. 

Já o estar sozinho para “fugir” e não se machucar mais é bem diferente. Pode funcionar e até ajudar por um espaço curto de tempo mas não vai solucionar o problema. Em algum momento a dor tem que ser encarada e sim, vai doer, mas também vai passar e a única forma é encará-la de frente.

Agora, se sentir só já é outra coisa. Você pode se sentir só numa mesa rodeada de pessoas, pode se sentir só num casamento ou relacionamento considerado perfeito, pode se sentir só mesmo quando conquistou o seu sonho. Já parou para pensar porque nos sentimos tão sós?

Para Phillip Cushman (pós doutor em psicologia, pesquisador, historiador e escritor) a era posterior à Segunda Guerra Mundial gerou um “eu” vazio; um “eu” que experimenta uma ausência significativa de comunidade, tradição e significado compartilhado. Um “eu” que experimenta essas ausências sociais e suas consequências “interiormente” como falta de convicção e valor pessoal, e incorpora as ausências como uma fome emocional crônica e indiferenciada.

É um “eu” que busca a experiência de ser continuamente preenchido pelo consumo de bens, calorias, experiências, políticos, parceiros românticos e terapeutas empáticos, na tentativa de combater a crescente alienação e fragmentação de seus problemas. Exatamente o “eu” que a economia e o mercado precisam.

Essas tipificações culturais e configurações do “eu” são formadas pelas economias e políticas de suas respectivas eras, infelizmente. A era de agora é a era da solidão. E as evidências estão mais do que claras, vivemos na era da depressão, da ansiedade, do narcisismo, do consumo desenfreado, da busca incessante da felicidade numa tentativa de compensar aquilo que foi perdido (Será que algo foi realmente perdido?).  As profissões, o estilo de vida ideal, as propagandas, a cultura, tudo reverbera a uma vida autossuficiente e extremamente solitária.

O Homo Sapiens é uma espécie que vive em comunidade e, por mais que se busque prazeres e bens de consumo, nunca se estará feliz e satisfeito porque essa busca não tem fim, ela é imposta, não é genuina.

Entender o que somos e analisar o meio em que vivemos é muito importante. Por isso que odeio quando me falam que a ignorância é uma benção. Jamais! Ver os fatos com clareza é uma benção!

A vida, assim como nosso cérebro, é uma rede onde tudo está integrado; o ar que você expira, outro ser o está inspirando e vice-versa; o que você faz (ou deixa de fazer) afeta todos os que estão próximos de você, que afeta os que estão próximos destes e assim por diante. Não há como fugir disso. Não somos uma entidade separada. Tudo o que fazemos afeta o outro, e quando me refiro ao outro, não se trata apenas do ser humano ao seu lado, mas a toda vida, ao planeta, ao universo.

É por esse motivo que é necessário entender o quão somos responsáveis, o quanto o conhecimento e estar consciente é necessário, e o quão importante é o nosso papel na grande escala de todas as coisas.

O seu bom dia vai fazer diferença e mudar o mundo, o seu mau humor também. O seu egoísmo, mais ainda. Talvez esteja na hora de se isolar um pouco e refletir sobre tudo isso. De parar de reclamar nas redes sociais sobre o partido político que odeia, sobre o ideal de vida ainda não alcançado, e fazer algo que realmente possa fazer uma diferença. Não precisa fazer nada pelo outro, faça por você e verá que tudo muda.

Referências:

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About the Author

About the Author: É neurocientista, idealizadora da Círculo Produções, professora de Yoga, Dj de Techno e blogger. Já foi dona de loja, garçonete, manager de artista, assistente de cobrança, vendedora, professora de universidade, webdesigner, fotógrafa, produtora de eventos, especialista em logística de piloto e dona de Club. Ama música, o cérebro, o universo, a ciência e escrever. .

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