Music. Ideas. Awareness

Falsas Memórias

By on March 11, 2019 in Neuromundo with 0 Comments

A memória é algo engraçado. Por que será que às vezes lembro do detalhe do botão da blusa amarela que uma pessoa que nem conheço estava usando no restaurante em que almocei, mas não consigo me recordar sobre a matéria importantíssima que li na noite anterior?

Seu cérebro acessa memórias o tempo todo e seu emocional molda muito o que você vai memorizar ou não. É assim que você aprende alguma coisa. Estar constantemente lembrando e esquecendo é a chave para entender por que somos tão inteligentes e criativos.

Mas, quero falar nesse texto sobre um fenômeno bizarro. Sabe quando você tem certeza de que visitou um certo lugar até que, um belo dia, se dá conta de que jamais pôs os pés lá? Ou quando consegue contar, com detalhes dignos de testemunha ocular, uma história que sequer aconteceu contigo? Bem-vindo ao mundo das memórias falsas, onde seu intelecto não é tão confiável assim. Como se já não bastasse as nossas ilusões né?

Esse fenômeno já é conhecido e bastante estudado na ciência e provavelmente você já deve tê-lo vivido alguma vez na sua vida. É, pelo visto, o filme “A Origem” não está  tão longe da realidade assim.

A memória falsa não é uma mentira que você criou, na verdade, é uma informação que seu cérebro juntou e que você jura que é real.

Para reviver uma memória, o cérebro precisa percorrer um caminho pré-determinado, reconectando a rede. Aí mora um problema, se uma memória sem importância precisa ser resgatada com urgência e detalhes, seu cérebro recorre à imaginação e preenche os buracos de modo automático.

O cérebro é capaz de gravar corretamente uma situação e armazená-la junto a memórias verdadeiras, sem que ela tenha ocorrido de fato. Pode ter sido contada por outra pessoa, ou simplesmente imaginada. Como não poderia deixar de ser, ele faz esse trabalho da forma mais criativa possível, usando o que tiver à disposição.

Nossa memória é moldada conforme os eventos vão acontecendo, ela não é linear. Elizabeth Loftus, psicóloga americana que conduziu o primeiro teste de destaque envolvendo a implantação de memórias falsas em 1995 descobriu com seus experimentos, que é possível convencer alguém de algo que nunca viveu só na base da lábia e da manipulação. 

A chave para o sucesso do método está na forma de conduzir a conversa. As histórias plantadas tinham como alicerce informações reais, dadas de antemão pelos pais das cobaias – como o nome de um amigo de infância ou da rua da casa em que viviam na época. Mescladas com informações absurdas e repetidas por vezes seguidas, o todo se tornava plausível.

No filme Amnésia, o protagonista enfrenta um problema de memória grave e passa a tatuar as informações no seu corpo para se lembrar dos acontecimentos. O mais incrível é que o filme é filmado segundo a visão dele. Vale a pena ver.

A grande questão aqui é, se não podemos confiar nas nossas memórias, em que podemos confiar? O que é real e o que não é? E, pior ainda, o que isso implica para a nossa sociedade, que se baseia em testemunhos constantemente para julgar crimes? É, o buraco é mais embaixo.

A série “Making a Murder” do Netflix que se baseia em acontecimentos reais e conta a história de ……, que ficou 7 anos preso por um crime que não cometeu graças a um falso testemunho da vítima. A vítima estava mentindo? Não, mas seu cérebro acreditou fielmente que o culpado do crime era uma pessoa que, na realidade, não havia cometido o crime mas que era fisicamente parecido com o real criminoso.

Nossas experiências moldam a nossa realidade, é preciso auto consciência e atenção para perceber quando estamos nos enganando ou não. Mas, o mais importante é estar aberto a possíveis erros. É por isso que amo a ciência, pois ela não é uma verdade absoluta, mas se baseia em evidências e conhecimentos adquiridos naquele momento para demonstrar algo. Por isso, que tal deixar a teimosia um pouco de lado e estar aberto para observar se você está realmente certo de algo ou não?  

Tags: , , , , , , , , , ,

About the Author

About the Author: É neurocientista, idealizadora da Círculo Produções, professora de Yoga, Dj de Techno e blogger. Já foi dona de loja, garçonete, manager de artista, assistente de cobrança, vendedora, professora de universidade, webdesigner, fotógrafa, produtora de eventos, especialista em logística de piloto e dona de Club. Ama música, o cérebro, o universo, a ciência e escrever. .

Subscribe

If you enjoyed this article, subscribe now to receive more just like it.

Post a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

eighteen − five =

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Top