Beyoncé e o resgate da identidade – Análise do álbum visual ‘Lemonade’

By on April 28, 2016 in Músico, Gênio ou Louco? with 0 Comments

Quando Beyoncé lançou seu último single no mês passado – Formation – pouco se sabia do que se trataria seu próximo álbum, mas muito era especulado. A temática polêmica com letra forte acabou por despistar genialmente a audiência do real conteúdo de seu novo álbum, intitulado Lemonade, lançado no último fim de semana.

Quem esperava um brado de revolta contra a discriminação racial se surpreendeu com o trabalho, que apesar de – sim – tratar de assuntos voltados ao preconceito, é simplesmente o disco mais intimista que já ouvi na vida. Beyoncé se expõe perigosamente em Lemonade, colocando em jogo sua vida pessoal, seu casamento, e transformando sua vivência dos últimos anos em uma odisséia sobre renovação de ideias, conceitos e valores.

É perceptível neste contexto como suas últimas experiências pessoais ligadas à fama (‘escândalos’, talvez) foram cruciais para a construção deste novo trabalho. Entre eles, dois momentos de sua vida ficam em evidência no contexto geral do álbum:

  • O primeiro deles, exposto mais graficamente nas letras e imagem, é a suposta traição de seu marido e a crise no relacionamento (http://br.eonline.com/2015/site-afirma-que-beyonce-e-jay-z-estao-se-separando/). Todo o arco central do álbum/vídeo gira em torno de uma decepção amorosa.
  • O segundo momento é expressado de maneira mais sutil, porém é o que aparentemente gera toda a transformação de valores impressas no trabalho: a relação com sua filha, Blue Ivy. (Aqui, lembro o caso mais significativo, quando um abaixo assinado foi feito na internet para que Beyoncé penteasse os cabelos de sua filha – http://ego.globo.com/famosos/noticia/2014/06/peticao-pede-para-beyonce-pentear-cabelo-da-filha.html).

Considerando estes eventos de sua vida pessoal cruelmente expostas ao público pela mídia, Lemonade traça ao longo de suas canções/vídeos uma narrativa que entrelaça o relacionamento estremecido e a reconquista de sua identidade cultural/histórica, desconstruída pelo padrão de beleza exigido pelo mercado pop atual (o estereótipo da mulher branca e poderosa).

160424171623-beyonce-lemonade-debut-brian-stelter-00001211-large-169O projeto é dividido em ‘capítulos’ que representam fases de superação da dor: Intuição, Negação, Ira, Apatia, Vazio, Ressureição, entre outros. A abertura, que expõe a descoberta de uma traição seguida por uma simbologia do suicídio marca o ponto de partida para a autoanálise da cantora (ilustrada no capítulo ‘negação’).

Neste momento ela declara: Tentei ser mais leve, mais bonita. Aqui ela ‘admite’ seu processo de negação de raízes que é reforçado pelo título do álbum. O termo ‘lemonade’ é uma referência a um hábito dos escravos norte-americanos, que acreditavam que beber limonada fazia com que a pele se tornasse mais clara.

Este é o pontapé inicial de toda a jornada representada no trabalho por músicas que passeiam pelo hip hop, reggae, country e gospel rock, além das imagens que trazem referências típicas da região sul dos Estados Unidos com elementos culturais afro-amerianos, do período de escravidão, blaxpoitaion, Malcom X, direitos civis, entre outros. Um trabalho muito bem executado, tanto na concepção visual quando na excelente qualidade das músicas.

A narrativa segue com o foco principal em seu processo de cura da decepção amorosa, entrelaçada à subtrama, que é a retomada (reconquista) gradual de suas raízes.

O ponto alto de seu trabalho, na minha opinião, se dá na nona música do disco, Forward, que no filme marca o encontro das duas temáticas. Protagonizada por James Blake (produtor da faixa, junto com Beyoncé), a faixa – a mais curta do álbum, com pouco mais de um minute de duração – trata da vontade da cantora de reconstruir o que foi perdido. De retomada do caminho. No vídeo, o discurso é reforçado por imagens de negros americanos segurando imagens de familiares mortos por policiais.

A letra é emblemática, e diz respeito às duas tramas desenvolvidas ao longo de Lemonade. Ao mesmo tempo um pedido de reconciliação e um chamado à luta por direitos iguais:

Em frente.

Com o melhor primeiro, apenas por precaução.

Como quando construímos nosso caminho até agora.

É tempo de escutar. É tempo de lutar.

Em frente!

Agora vamos segurar as portas para que fiquem abertas por enquanto.

Agora podemos ficar abertos por um tempo.

Em frente!

Eu te amo mais do que esse emprego.

Por favor, não trabalhe por mim.

Em frente!

Volte a dormir no seu lugar favorito

que é ao meu lado.

Em frente…”

 

O nome do capítulo? Ressureiçao.

O próximo? Redenção, encabeçado pela faixa ‘Freedom’ (liberdade), produzida em parceria com Kendrick Lamar, expoente do hiphop nos Estados Unidos, e que tem como base fortes acordes de órgão tradicionais do R&B clássico. Este momento simboliza a reconstrução total de suas origens histórico-culturais.

beyonce-lemonade-visual-album-still-5Há muito o que ser discutido em Lemonade. Feminismo, religião, apropriação cultural. O que prova que o novo álbum de Beyoncé é mais do que apenas um novo trabalho no mundo pop, mas uma manifestação artística totalmente necessária nos dias de hoje. Uma manifestação daquelas que podem gerar transformações culturais.

E se os fãs reclamam que a faixa Formation não está incluída na narrativa central de Lemonade, mas apenas nos pós-créditos, é porque não entendem que não se deve chutar cachorro morto. Em seu vídeo musical, Beyoncé se preocupa mais em apresentar todo o processo (pessoal e de produção) que a fez chegar em Formation do que criar redundâncias discursivas em cima de um tema já explorado incansavelmente no mês anterior.

Lemonade é um trabalho transformador. Tanto pra quem escuta, quando para quem o produziu.

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