Profissão Dj – O que fazer para não ser mais um no meio da multidão

By on October 19, 2015 in Management with 2 Comments

djhero

Lembro como se fosse ontem da primeira festa de música eletrônica que fui. Tinha 16 anos e foi exatamente dois dias antes de embarcar para um intercâmbio na Inglaterra.

Festa estranha com gente esquisita. Essa música parece ter sido criada para aquele momento. Neste dia, num julho qualquer, minha perspectiva sobre tudo o que eu havia vivido até então mudou, e eu não tinha a menor ideia na época, mas aquela festa mudaria completamente a minha vida.

Bom, esse texto não é para contar sobre a minha trajetória no mundo da música eletrônica (ainda não pelo menos), mas sim para falar sobre o papel do Dj na cena da música eletrônica.

Dj Murphy fazendo um samba com um toca disco.

Dj Murphy, o artista inova com os toca discos.

Sim, eu sou oldschool. Da época em que não existia um aplicativo para descobrir a música que o cara estava tocando. Portanto, quando queria descobrir o nome de uma música, tinha que memorizar a melodia e escrever num papel para depois perguntar aos meus amigos DJs (podem imaginar como fazer isso com músicas que não tem letra? Milhares de papeizinhos com escritos do tipo “PAPAPA, PAPA”, e sim, eu conseguia descobrir o nome da música).

Mas, o importante aqui é que naquela época o DJ era uma espécie de porta-voz de tendências musicais. Ele era a peça chave dentro de um evento, mostrando o que havia de novo e como aquele novo se adequava a sua identidade pessoal como artista,  transformando então a pista de dança em algo simplesmente mágico.

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Joni Anglister fazendo percurssão com um equipamento que ele mesmo criou a partir de sucata.

O que vejo hoje é uma multidão de cópias do que “funciona” numa pista de dança. O que muda é que alguns copiam o estilo x e outros o estilo y e, o pior de tudo, é que esses estilos já não são mais ditados pelos artistas em si, mas por uma indústria de grandes eventos e gravadoras que visam apenas o lucro.

Não vejo nada de errado em visar o lucro, todos temos que comer e infelizmente não se pode viver apenas de ar. Mas, a partir do momento em que você vive somente daquela fórmula certeira, sem se arriscar ou inovar, você se torna descartável. E é por isso que vemos tantos DJs ascenderem e desaparecerem em questão de meses.

O artista já não tem uma identidade própria. Ele simplesmente copia o que vê que está dando certo. E certamente funciona por um tempo, porém, acaba por se tornar obsoleto. Infelizmente é isso o que vejo que está acontecendo com a música eletrônica.

Acredito que a arte deve ser reinventada e é totalmente justificável utilizar o que está dando certo musicalmente para benefício próprio. Porém, uma coisa é utilizar aquilo como inspiração para criar algo inovador, outra coisa é copiar e colar.

Um dia, estava num evento e vi um artista inserir em seu set uma música dos Ramones. A pista simplesmente veio ao delírio. O artista soube inovar e surpreendeu o público. É disso que estou falando. Não se trata de tocar algo transcendental ou fazer um evento de outro mundo, mas sim criar um diferencial naquilo que já existe e incorporá-lo à sua identidade.

Isso acontece tanto com outros estilos musicais como o sertanejo, a mpb e afins e na música eletrônica é sempre mais do mesmo. Como assim? Justamente o estilo com a maior capacidade de se renovar e diversificar.

steve-aoki-pieQuando tenho uma ideia para um novo projeto de mestrado e converso com o meu orientador, ele sempre me fala: “Mas você já pesquisou sobre esse tema na literatura?”. Confesso que às vezes tenho raiva dessa frase, mas é justamente o que falta nos artistas e nos promoters de hoje em dia: pesquisa, atualização e recriação.

Desta forma, o DJ acaba por jogar cultura, novidade e informação na cara de seu público, ao invés de apenas uma torta vazia, sem sabor, sem propósito.

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About the Author

About the Author: É idealizadora da Círculo Produções, blogger, produtora musical, manager de djs, musicoterapeuta organizacional e estudante de neurociência. Multitask ou melhor multiloca, já foi dona de loja, garçonete, Dj, assistente de cobrança, vendedora, professora de universidade, webdesigner, fotógrafa, produtora de eventos, especialista em logística de piloto e dona de Club. Ama o cérebro, teorias de conspiração, ser do contra e escrever. .

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There Are 2 Brilliant Comments

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  1. MK Jay says:

    Sensacionais as matérias!!

  2. Oi Mariana. Tudo bem? Estou lendo algumas matérias sobre carreira de DJ e encontrei um texto teu na DJBan de 2013 dizendo o seguinte: “Portanto, se você está preparando um e-mail ou material para enviar a alguma agência, pare já! O caminho das pedras é outro.”

    Bom, somando essa frase de 2013 com esta matéria de 2015 mais a época que escrevo (Ago/2016) pergunto: Você ainda considera ‘errado’ o DJ/ Produtos mandar email para agência?

    Digo isso pois o mercado musical (e o mundo, é claro) tem mudado rapidamente e algumas ‘regras’ muitas vezes se tornam obsoletas rapidamente.
    Tenho visto agências publicarem posts pedindo para DJs e produtores entrarem em contato enviando material, e vendo teus textos (esse de 2015 e o de 2013) as coisas ficaram meio bagunçadas na minha cabeça.

    Obs.: Independente da resposta (e da época), seus textos são ótimos. Extremamente esclarecedores.

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